Quer dinheiro? Vá ao Google

Quer dinheiro? Vá ao Google

5 outubro 2015, 19:41
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Empresas tecnológicas estão a invadir o setor financeiro: processam pagamentos, facilitam investimentos e fomentam poupança. Analistas esperam revolução no setor bancário.

Ir ao banco pedir um crédito, guardar poupanças ou realizar pagamentos vai ser, em breve, coisa do passado. Já estão aí as fintech, startups tecnológicas que oferecem serviços financeiros, a preços mais baixos. Nasceram há pouco mais de cinco anos, aproveitando a fragilidade do setor bancário, e estão já na mira de grandes empresas como a Google ou o Facebook. Serão precisos apenas dois a cinco anos para que se tornem as grandes concorrentes da banca, defendem analistas. "Quer um crédito? Vá ao Google" poderá tornar-se o novo slogan.

O negócio financeiro já é uma realidade para as gigantes tecnológicas. "O Facebook já aceita transferências diretamente no Messenger; o Google efetua pagamentos através do Google Wallet desde 2011 e a Apple acabou de entrar também nesse mercado através da Apple Pay", lembra Gaspar d"Orey, fundador da Zercatto, uma fintech portuguesa que facilita investimentos em bolsa. Põem em contacto uma lista de experts que partilham a sua carteira de investimentos com investidores de todo o mundo e é só esperar pelo retorno. Nascida em 2013, esta startup portuguesa tem já cerca de 4500 seguidores de estratégias de países tão variados como Inglaterra, Alemanha, Holanda ou Portugal. Disponibilizam um total de 320 estratégias de mais de 250 experts que estão entre as Filipinas e a Califórnia. "A rentabilidade das carteiras é, em média, superior a 30%, incluindo neste ano, enquanto todos os índices seguem negativos após os impactos da China e da Grécia", garante Gaspar d"Orey ao Dinheiro Vivo.

Como a Zercatto, há em Portugal outras empresas que, tendo uma raiz tecnológica, se dedicam em exclusivo aos serviços financeiros. São os casos da Switch Payments, Magnifinance, Seedrs, Advice Front ou da Feedzai. Esta última, que permite a deteção de fraudes com cartões bancários em negócios de comércio ou banca online, vai ultrapassar neste ano os 800 milhões de dólares em volume de pagamentos diários.

O volume de financiamentos "alternativos" na Europa superou, no ano passado, os três mil milhões de euros, um crescimento de 144% em relação ao ano anterior. Só o Reino Unido foi responsável por 2400 milhões de euros. "Neste momento, as fintech estão a pôr em contacto empresas e particulares e, através de uma rede de investidores, proporcionam dinheiro em poucas horas e com um custo inferior ao da banca", revelou Phillipe Gelis, cofundador da Kantox, uma plataforma financeira de câmbios com sede em Londres. Mas em poucos anos estas empresas farão tudo sozinhas. Será uma "segunda vaga" que dará lugar aos "bancos fintech" e que aproveitará a maior confiança dos consumidores na internet. Nessa altura espera-se que 90% das movimentações bancárias sejam feitas através da internet, o que tenderá a aumentar se o serviço for eficaz.

"A banca tradicional já era. Estamos na era digital e a área financeira ou se adapta ou não vai resistir. Tal como as tradicionais telecoms tiveram de se adaptar ou os táxis terão de se adaptar à Uber mais cedo ou mais tarde", defende Gaspar d"Orey. Assim, se estas empresas conseguirem licenças bancárias que lhes permitam tornar-se mais confiáveis para os utilizadores, haverá uma "reinvenção da banca", detalha o CEO da Kantox.

Será possível coexistir? "O sistema bancário considera que tem, em relação aos novos competidores, condições particularmente favoráveis para continuar a desempenhar um papel de absoluta liderança no que respeita aos paga- mentos, tendo em conta a sua experiência, capacidade de inovação tecnológica, complementaridade na prestação de outros serviços bancários e, muito em especial, a natureza e razão de ser da atividade bancária, que pressupõe confiança e requisitos absolutamente rigorosos de segurança e confidencialidade", afirma a Associação Portuguesa de Bancos, lembrando que "o mercado é, por definição, feito de concorrência, o que, em última instância, beneficia o consumidor final e estimula a competitividade".

E do ponto de vista legal? ""A regulação não pode ser impedimento à inovação", foi o que nos disse a CMVM quando aprovou o pedido que fizemos para a Zercatto", diz o CEO da empresa portuguesa.


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