Fed mantém discurso prudente

Fed mantém discurso prudente

23 março 2015, 18:00
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Esta semana, assistimos novamente a um adiamento da decisão de inversão do ciclo de política monetária por parte da autoridade monetária norte-americana.

A Reserva Federal voltou a demonstrar algum receio de que a decisão de aumentar as taxas de juro antes do desejado pudesse trazer riscos, e deixou claro que fará uma gestão muito cautelosa da normalização da política monetária.

A Reserva Federal norte-americana considerou apropriado manter a política monetária inalterada (conservando o intervalo objectivo das taxas dos fed funds em 0-0.25%), mas tal como era esperado, retirou a palavra "paciência" da sua comunicação sobre a orientação da política monetária (forward guidance) em relação à subida das taxas de juro.

Porém, tanto o discurso da presidente da Fed, como as novas projecções do Comité Federal de Mercado Aberto (FOMC), sugerem que a inversão da política monetária será muito mais cautelosa do que o esperado pelos mercados.

Em relação ao crescimento económico de 2015, a Fed reviu em baixo as suas previsões para um intervalo de 2.3-2.7% (vs. 2.6-3% nas projecções de Dezembro), em resultado de um abrandamento do crescimento das exportações que se vem observando desde o início do ano, devido à valorização do dólar.

Por outro lado, a persistência da apreciação da moeda norte-americana, assim como a evolução dos preços da energia, têm impedido que a taxa de inflação caminhe para o objectivo dos 2%, o que levou os membros do Comité a reverem em baixa as previsões para a inflação em 2015 para um intervalo de 0.6-0.8% (vs. 1-1.6% em Dezembro).

Relativamente ao mercado de trabalho, apesar de as previsões para a taxa de desemprego terem sido revistas em baixa de forma a reflectirem as melhorias que se têm verificado nos últimos meses, as estimativas para a tendência da taxa de desemprego de equilíbrio (NAIRU) foram reduzidas para 5-5.2% (comparativamente a 5.2-5.5% em Dezembro).

Provavelmente, o mais surpreendente foi a queda da mediana das projecções para as taxas de juro dos federal funds, sugerindo que o ritmo a que as taxas deverão aumentar será mais lento do que anteriormente antecipado. As projecções apontam agora para uma taxa de 0.625% em 2015 (contra expectativa de 1.125% em Dezembro), 1.875% em 2016 (vs. 2.5%) e 3.125% em 2017 (vs. 3.625%). Esta postura muito mais cautelosa em relação ao cenário macroeconómico resultou provavelmente de múltiplos factores, mas um ponto crucial terá sido indiscutivelmente a apreciação do dólar para patamares não observados em mais de 10 anos, o que deverá enfraquecer o crescimento das exportações e conter o crescimento dos preços. Mas outro ponto que importa realçar, prende-se com a possibilidade de um aumento precoce das taxas de juro poder desencadear instabilidade indesejada nos mercados financeiros, nomeadamente nos mercados emergentes, tal como aconteceu em 2013 quando foi anunciado o tappering.

Desta forma, ficou claro que apesar de existirem riscos por se esperar demasiado tempo para se proceder à normalização da política monetária (especialmente considerando o desfasamento temporal que poderá existir entre a decisão da Fed e o momento em que esta começa a produzir efeitos na economia), a Reserva Federal acredita que os custos de aumentar as taxas de juro antes do tempo e interromper uma recuperação económica que tem sido difícil de conseguir, poderiam ser mais elevados do que aumentar as taxas de juro com algum atraso.

A autoridade monetária norte-americana considera por isso que para que se concretize a tão aguardada inversão de política monetária é necessário que se cumpram efectivamente duas condições: (i) se assinalem mais melhorias no mercado de trabalho, ou seja, permitir que a taxa de desemprego desça para um nível consistente com o crescimento dos salários (ii) que se restabeleça a confiança de que a taxa de inflação tenderá para o seu valor de referência de 2% no médio prazo. Considerando que o primeiro ponto está perto de ser alcançado, a Fed está "suficientemente confiante" que isso deverá ajudar a restabelecer as expectativas de inflação (tanto nos indicadores de inquéritos, como nas expectativas de mercado).

Neste âmbito, a mensagem da Fed foi de que nos próximos meses, as atenções se deverão debruçar sobretudo sobre a evolução dos indicadores económicos. Os indicadores divulgados esta semana - confiança empresarial, pedidos de subsídio de desemprego e conta corrente - foram menos positivos, mas tem-se associado o agravamento dos indicadores a factores sazonais, tal como já aconteceu no início do ano passado, sendo que depois a economia recuperou fôlego no resto ano.

Também a queda do preço do petróleo tem conduzido a uma retracção do investimento neste sector, mas em termos agregados espera-se que o efeito na economia seja positivo. E finalmente, apesar de a valorização do dólar ter um impacto indiscutível na economia, deve-se ter em conta que a contribuição das exportações para o crescimento é relativamente reduzida, o que não deve portanto abater o crescimento económico de forma muito drástica. Traduzindo de outra forma, a Fed considera pouco provável que os indicadores melhorem de tal forma, que o primeiro aumento possa ocorrer já em Abril, mas continua a não descartar a possibilidade de que este ocorra em Junho, ainda que os mercados comecem a apontar para Setembro.


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