Uma ação astuta, mas não decisiva

Uma ação astuta, mas não decisiva

11 setembro 2014, 08:56
Mansurrio
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Essa ainda não é bem a definitiva - é mais um aperitivo, ou "amuse-bouche", como se diria em francês. Mas a medida tomada na quinta-feira pelo Banco Central Europeu (BCE) - a redução de taxa de juros e a decisão, em princípio, de realizar compras de ativos do setor privado - constitui o penúltimo passo antes da "Grande Bazuca": um programa de vários trilhões de euros para a compra de bônus governamentais.

O BCE, por enquanto, apenas comprará ativos do setor privado, dos quais a zona do euro tem alguns, mas não muitos -, coisa que não está perto do suficiente para tirá-la do desespero. Eu ainda prevejo o surgimento de um afrouxamento quantitativo propriamente dito antes do fim do ano. O único problema é que, quando as condições de um programa como esse se concretizarem - um enfraquecimento ainda maior das taxas de inflação -, poderemos ter chegado muito perto de uma situação onde nem um afrouxamento quantitativo resolverá mais.

Não vou desprezar, no entanto, a decisão de quinta-feira como desprezei as resoluções tomadas pelo conselho supervisor do BCE em junho, mais focadas na liquidez do que na inflação. O que me impressionou não foi a redução da taxa de juros, e sim o fato de Mario Draghi, o presidente do BCE, ter permitido que a decisão fosse tomada em votação majoritária. Foram bem poucos os dirigentes do BCE que se opuseram à medida. Isso nos diz que os que desejavam implementá-la estão mais determinados do que estavam anteriormente, e que estão dispostos a empurrar os opositores para um papel minoritário. Isso é verdadeiramente novo.

O corte da taxa de juros, por si só, é, em grande medida, simbólico. Draghi tinha razão, em junho, ao dizer que o BCE tinha chegado ao limite mínimo para todos os efeitos práticos. Ainda estamos nesse ponto agora. A redução da taxa de juros deve ser vista como uma declaração de que o BCE está mais alarmado hoje do que parecia estar em junho. A informação que isso transmite ultrapassa os efeitos econômicos diretos.

O programa de títulos lastreados em ativos (ABS, nas iniciais em inglês) é a decisão mais significativa das duas. É melhor pensar nela como um afrouxamento quantitativo em pequena escala. Esses ativos são os "covered bonds" - bônus emitidos por bancos e garantidos por caução - e ABS.

Estes últimos são papéis emitidos por bancos contra empréstimos concedidos por eles, por exemplo, a pessoas físicas e jurídicas. Uma garantia de compra desses bônus deverá facilitar para os bancos a tarefa de conceder crédito, porque eles poderão repassar o risco para o BCE - e, em última instância, para os contribuintes da zona do euro, se os tomadores não quitarem seus empréstimos.

O BCE só vai comprar os ABS conhecidos como "sabor baunilha" - títulos simples, sem estruturas muito exóticas. Mas o mercado, infelizmente, é bastante pequeno. A estimativa desse programa é de um máximo de algumas centenas de bilhões de euros - o que não é muito, em vista da produção anual da economia da zona do euro, de quase € 10 trilhões. Tirar do coma uma economia tão grande exige uma ordem de magnitude diferente.



Mas o BCE pelo menos começou. Draghi iniciou a mudança radical de sua política no discurso que pronunciou em Jackson Hole, no qual reconheceu que as expectativas de inflação poderiam ficar desestabilizantes e que a zona do euro sofre de escassez de demanda agregada.

Comentaristas como eu dizem essas coisas três vezes por dia, mas não é comum uma pessoa ouvir essas palavras de um dirigente de banco central europeu conservador.

A grande interrogação é se, e ao longo de que período, essa política poderá dar resultados, e se os dirigentes políticos da zona do euro poderão gerar uma expansão fiscal concomitante por meio de uma redução de impostos ou de um estímulo aos investimentos.

Para que as medidas funcionem, tanto a política fiscal quanto a monetária precisam se expandir. O Banco Central Europeu e Draghi merecem elogios por terem começado. Mas devemos ter consciência também de que ainda estamos bem distante do meio do caminho. 

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