Encurralada pela inflação, Venezuela importa bilhões de cédulas de bolívar

Encurralada pela inflação, Venezuela importa bilhões de cédulas de bolívar

6 fevereiro 2016, 11:07
Thalya Braga Manilha
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Nos últimos meses, milhares de toneladas de carga procedentes de vários países do mundo chegaram a Caracas em mais de 30 aviões jumbo 747 lotados para ajudar a abatida economia da Venezuela. Mas na carga não havia alimentos nem remédios. Os aviões estavam transportando um outro recurso muito escasso no país: notas do bolívar, a moeda da Venezuela.

As remessas eram parte de uma importação de pelo menos cinco bilhões de cédulas de bolívar que o governo do presidente Nicolás Maduro autorizou durante o segundo semestre de 2015 para impulsionar a oferta da cada vez mais desvalorizada moeda do país, dizem sete pessoas a par da operação.

E o governo não parou por aí. Em dezembro, o banco central iniciou negociações secretas para imprimir mais 10 bilhões de notas, segundo cinco dessas fontes, o que irá dobrar o volume de dinheiro em circulação. Só essa nova encomenda está bem acima dos 8 bilhões de notas que o Federal Reserve, o banco central americano, e o Banco Central Europeu imprimem anualmente — respectivamente, dólares e euros que, ao contrário dos bolívares, são utilizados mundialmente.

Quatro porta-vozes do banco central da Venezuela não responderam a telefonemas e e-mails com solicitações de comentários.

Economistas dizem que as compras podem piorar ainda mais a séria crise econômica da Venezuela: injetar um grande número de notas novas na economia provavelmente vai elevar a inflação, a qual, segundo estimativa do Fundo Monetário Internacional, deverá atingir 720% neste ano, a maior taxa do mundo.

Dados do banco central mostram que, em 2015, o país mais que dobrou sua base monetária, uma medida de todo o dinheiro disponível na economia, inclusive depósitos bancários.

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A impressão de mais bolívares está enfraquecendo ainda mais a moeda. Nesta semana, a cotação do dólar no pulsante mercado negro da Venezuela superou a importante barreira psicológica de 1.000 bolívares. A Venezuela possui várias taxas de câmbio oficiais para o dólar, inclusive uma de 6,3 bolívares.

Para os 30 milhões de habitantes da Venezuela, as notas existentes nunca parecem ser suficientes, diz Steve H. Hanke, especialista em moedas desvalorizadas da Universidade Johns Hopkins, nos Estados Unidos. “As pessoas querem dinheiro vivo porque querem se livrar dele o mais rápido possível”, diz ele.

Embora o uso de cartões de crédito e transferências bancárias esteja crescendo, os venezuelanos precisam carregar grandes volumes de dinheiro porque muitos vendedores querem evitar as tarifas das transações. Um jantar num bom restaurante pode custar um maço de notas da grossura de um tijolo. Uma torta tradicional de milho recheada com queijo — a “arepa” — custa perto de 1.000 bolívares, exigindo dez das cédulas de maior valor do país, as de 100 bolívares, que valem menos de US$ 0,10 cada uma.

Controles rígidos de preços feitos pelo governo apenas pioraram as coisas, dizem economistas, gerando um mercado negro ativo para quase todos os produtos, de pneus de carro a fraldas, e no qual o dinheiro vivo é a forma preferida de pagamento.

A onda de compras de cédulas está custando centenas de milhões de dólares ao governo esquerdista do país, que sofre com a escassez de dinheiro, dizem todas as sete pessoas a par dos acordos da Venezuela com os fabricantes de cédulas.

O alto custo da impressão fica ainda mais pesado devido ao colapso dos preços do petróleo, a principal fonte de receita da Venezuela, e a 17 anos de gastos descontrolados do governo socialista que deixaram as finanças dos Estados em frangalhos.

A maioria dos países terceiriza a impressão de dinheiro para empresas privadas que oferecem tecnologias sofisticadas de proteção contra falsificação, como marcas d’água e fitas de segurança. Os pedidos da Venezuela se destacam pelo volume e a necessidade urgente do dinheiro.

As impressoras do banco central não possuem metal e papel de segurança suficientes para imprimir nem uma pequena parte do dinheiro do país, dizem pessoas a par da situação. Isso significa que a Venezuela tem que comprar bolívares no exterior a qualquer custo.

A enorme encomenda de 10 bilhões de notas não tem como ser atendida por um único impressor, dizem fontes. Então, ela despertou o interesse de várias das maiores impressoras comerciais do mundo, cada uma de olho num pedaço do bolo, num momento em que os lucros baixos da impressão de papel-moeda levaram muitas a reduzir sua capacidade.

Segundo pessoas a par das encomendas, essas impressoras incluem a britânica De La Rue, a canadense Bank Note Co., a francesa Oberthur Fiduciaire e uma subsidiária da alemã Giesecke & Devrient, que imprimiu o marco alemão da República de Weimar, na época da hiperinflação da Alemanha nos anos 20, quando as pessoas carregavam dinheiro em carrinhos de mão para comprar pão. Mais recentemente, a Giesecke & Devrient vendeu papel de segurança para o Zimbábue quando o país africano estava às voltas com uma hiperinflação, em 2008.

Nenhuma das empresas de impressão quis comentar.

Maduro e seus aliados dizem que a inflação em alta na Venezuela é resultado de uma conspiração capitalista para desestabilizar seu governo.

No fim de dezembro, o presidente mudou uma lei para obter controle total sobre o banco central, retirando a supervisão do Congresso no momento em que a oposição assumia o controle da Assembleia Nacional pela primeira vez em 17 anos.

“Para parar a impressão excessiva, temos que desfazer essa lei e restaurar a autonomia do banco central”, diz Elías Matta, um parlamentar de oposição especializado em finanças públicas.

A enxurrada de dinheiro na Venezuela tem levado alguns setores da economia, como o imobiliário e o automotivo, a precificar seus bens em dólar, embora façam isso às escondidas porque negociar em moeda estrangeira é ilegal.

Nas ruas repletas de crimes de Caracas, dizem pessoas do setor de segurança, grupos profissionais de sequestros frequentemente exigem a moeda americana para pagamento de resgates, em vez de bolívares.

Uma fotocópia colorida de uma nota de 100 bolívares custa mais do que a própria nota. Em uma imagem que se tornou viral nas redes sociais, uma pessoa usa uma nota de 2 bolívares para segurar uma frigideira engordurada porque a nota é mais barata que o guardanapo.

Alguns caixas eletrônicos limitam os saques diários a 6 mil bolívares — menos de US$ 6 no mercado paralelo. Mesmo assim, as máquinas frequentemente ficam sem dinheiro. Em um sinal da rapidez com que os novos bolívares entram na economia, os números seriais das notas que saem dos caixas eletrônicos, com o brilho de cédula nova, estão quase sempre na ordem sequencial.

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