O rali de agosto

O rali de agosto

3 setembro 2014, 12:42
Fernandopibo
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E o risco compensou. Quem evitou se concentrar em posições conservadoras no início do ano e diversificou a carteira, quando os ventos do mercado começaram a mudar, ganhou muito. E muito significa, no mínimo, mais de duas vezes o acumulado em 2014 pelo Certificado de Depósito Interfinanceiro (CDI), de 6,87%.

Agosto sacramentou o movimento iniciado em março, de forte valorização dos ativos mais voláteis, na esteira do aumento da chance de vitória da oposição na corrida presidencial. A morte do candidato Eduardo Campos e a ascensão de Marina Silva à cabeça da chapa do PSB trouxeram uma reviravolta na disputa. Além da bolsa, que disparou na ponta como aplicação mais rentável do ano até o momento, os títulos longos, como as NTN-Bs, papéis públicos indexados à inflação, já alcançam dois dígitos de valorização em 2014.


O Ibovespa sobe 18,99% no acumulado dos oito meses. Outro índice acionário, o IBrX 50, apresenta um retorno de 18,94% no período. Já o ganho médio das NTN-Bs até agosto alcança 16,09%, conforme o IMA-B, indicador que reflete a variação de uma cesta de títulos públicos indexados à inflação com vencimentos diversos.

Agosto foi o melhor mês para a bolsa no ano. No período, todos os índices acionários tiveram alta forte. O Ibovespa ganhou 9,78%, enquanto o IBrX 50 conseguiu desempenho ainda melhor, com retorno de 9,82%. Outros indicadores, como Índice de Dividendos (Idiv), Índice Small Caps e o Índice de Sustentabilidade Empresarial (ISE), registraram, respectivamente, avanços de 7,82%, 7,54% e 5,03%.

"O mercado reagiu basicamente às especulações eleitorais", afirma Beto Domenici, diretor de gestão de investimentos da Rio Bravo. Na bolsa, o destaque fica por conta das ações do chamado "kit eleição", entre elas de companhias estatais como Petrobras PN, com ganho de 22,25%, Banco do Brasil ON (+26,56%) e Eletrobras ON (+30,40%) - todas com alta bem superior ao índice. O risco de uma reversão não pode ser descartado, na visão de Domenici. "Não recomendo comprar o kit eleição agora", afirma ele. "No curto prazo, os mercados continuam voláteis e muito dependentes do cenário eleitoral, das pesquisas, debates, apresentação das propostas."

Na renda fixa, os títulos longos, mais voláteis, também voltaram a brilhar no mês passado, com a combinação do efeito eleições no país e o ambiente global de alta liquidez, que estimulou o apetite ao risco de investidores estrangeiros. A possibilidade de vitória da oposição e a perspectiva de maior austeridade fiscal ajudaram a derrubar os juros futuros.

Além do fator votação, o resultado fraco do PIB do segundo trimestre, com queda de 0,6% em relação aos três meses anteriores, reforçou o fechamento da curva no fim de agosto. A economia lenta alimentou o argumento de quem não vê espaço para um novo aperto monetário para conter a inflação em 2015. Com isso, os papéis com vencimentos mais distantes se valorizaram ainda mais, caso da NTN-B Principal 2035, que registra ganho de 7,30% apenas no mês passado e 30,32% no ano, ou a prefixada NTN-F 2023, com rentabilidade mensal de 2,72% e no acumulado do ano de 18,47%, segundo dados do sistema Tesouro Direto. "Até o momento, podemos dizer que 2014 é um ano de renda fixa", afirma o vice-presidente de investimentos da SulAmérica, Marcelo Mello.

Embora o momento ainda seja favorável ao risco, gestores alertam para o estreitamento da janela de oportunidades das aplicações mais voláteis. "Agora é um período de começar a tirar o pé [dos papéis mais arriscados]", afirma Marco Freire, diretor de renda fixa no Brasil da gestora americana Franklin Templeton. Segundo o gestor, os ativos estão "bem mais caros" do que há seis meses. Uma NTN-B Principal com vencimento em 2035, que chegou a pagar uma taxa ao redor 7,2% no início de fevereiro, hoje oferece um juro real de 5,6%.

Freire alerta para a entrada em um período no qual o mundo "caminha gradualmente para um cenário de menor liquidez, com a aproximação de um momento de subida de taxas de juros nos Estados Unidos". Mello, da SulAmérica, vê maior possibilidade de subida dos juros nos EUA a partir do início do segundo trimestre de 2015. "A Yellen [presidente do Fed, o banco central americano] declarou que as taxas têm espaço para se manter no patamar que estão hoje", avalia o gestor da SulAmérica.

Para Domenici, da Rio Bravo, o Fed tende a adotar uma postura bastante prudente, com aumentos graduais, a fim de evitar um estresse nos mercados e preservar a recuperação econômica. Ele destaca ainda que o início do processo de normalização nos Estados Unidos pode gerar um efeito positivo nos mercados após o ajuste inicial, uma vez que tira uma "espada sobre a cabeça".

Assim, persiste ainda um ambiente favorável aos juros longos no Brasil. "A gente aconselha a ter juros longos, pós ou prefixados. Vemos ainda um futuro positivo [aos títulos do gênero]. Mas tem de ter um pouco mais de cautela", afirma. Conforme Freire, a casa trabalha com perspectiva de estabilidade para a Selic em 2015. "Muita gente acha que o BC vai ter de subir juros, mas com um maior aperto fiscal e a atividade fraca as chances de a taxa básica subir são menores."

Domenici também não enxerga alta de juro, diante de uma "economia muito ruim, em recessão técnica". Na visão do gestor da Rio Bravo, ainda há prêmio, ainda que reduzido, nos títulos prefixados e indexados à inflação - esse último mais indicado para quem tem um horizonte de longo prazo. A estratégia, contudo, tem sido de ampliar o caixa tanto em renda fixa, com o aumento da parcela pós-fixada, quanto em ações, na expectativa do surgimento de oportunidades em empresas específicas.

Na renda variável, a forte valorização da bolsa nos últimos seis meses de fato acendeu um sinal amarelo entre os gestores e analistas do mercado, apesar da possibilidade de manutenção do movimento. O Credit Suisse, em relatório, chama a atenção para o recorde histórico do IBrX 100. O índice brasileiro alcançou pontuação máxima em 27 de agosto, aos 24.974 pontos. A alta no ano alcança 17,28% e o ganho desde a mínima em 2014, ocorrida no dia 14 de março, chega a 33,6%.

O banco suíço reiterou no documento sua visão de "market weight" (em linha com o mercado) para as ações brasileiras. Na análise da instituição, o rali levou a uma expansão no múltiplo preço/lucro (P/L) projetado para 12 meses do IBrX para 12,4 vezes. Trata-se, segundo a casa, de um prêmio significativo na comparação com a média histórica do índice, de 10,8 vezes.

Segundo Freire, da Franklin, a bolsa, que tinha ficado para trás em relação ao benefício gerado pela grande liquidez global, pode receber um fluxo maior de capital estrangeiro a partir do fim do ano. Para o especialista, após as eleições, um cenário melhor definido e, eventualmente, mais favorável ao mercado pode impulsionar o fluxo de investidores de fora. "Tem entrado bastante dinheiro estrangeiro. E pode entrar um pouco mais no fim do ano via bolsa", diz.

Na opinião de Mello, da SulAmérica, "os agentes de mercado estão esperando as eleições para ver como será 2015". Com isso, o gestor enxerga uma maior propensão ao risco dos investidores, com volta à bolsa e aos papéis de inflação, mais a partir do ano que vem.

O professor de finanças do Insper, Michel Viriato, também trabalha com a possibilidade de volta mais forte dos estrangeiros ao mercado acionário brasileiro após as eleições. "Muitos investidores de fora estão esperando a definição do cenário eleitoral e da equipe econômica do futuro governo. Então dependendo do cenário, a bolsa tem espaço para subir mais", considera.

Apesar de as pesquisas eleitorais terem disparado o rali da bolsa brasileira desde março, o gestor da Franklin pondera que o comportamento altista está ligado a uma movimento maior. "Várias bolsas internacionais estão nas máximas históricas", diz Freire. Viriato, do Insper, cita o S&P 500, um dos principais indicadores da bolsa de Nova York, que subiu 3,8% em agosto e tem acumulado ganhos fortes nos últimos meses. "Esse avanço favorece o mercado de ações como um todo no mundo."

A variável "esquecida" pelo mercado, segundo Freire, é o câmbio. O gestor da Franklin vê o real muito apreciado. "O dólar a R$ 2,25 me parece desvalorizado", considera. Conforme o especialista, um movimento de reversão do atual cenário externo de alta liquidez pode exigir um ajuste na moeda brasileira que "não será pequeno". Freire enxerga o mercado muito complacente com o cenário externo. "E isso é um risco. O mercado imagina que vai ter muita liquidez por muito tempo, mas isso pode mudar rápido, por exemplo, se houver mais pressões inflacionárias na economia americana."

Em um ambiente doméstico ainda favorável aos juros longos, mas com perspectiva de reversão no apetite ao risco global, o gestor da Franklin Templeton explica que tem mantido em carteira papéis longos, mas também se precavido em relação ao câmbio. "A gente gosta de NTN-B Principal 2022 e NTN-B Principal 2035, na parte otimista. Mas temos comprado um pouco de dólar para contrabalançar esse risco das NTN-Bs, um 'hedge' para um cenário de enxugamento de liquidez", afirma.

Na Rio Bravo, a tese para o câmbio é de menor volatilidade, com o dólar oscilando numa faixa entre R$ 2,15, R$ 2,20 - considerado um piso dado que atrai muito comprador em busca de hedge - e R$ 2,30, R$ 2,35. O Banco Central brasileiro ainda tem muita artilharia para segurar o dólar, segundo Domenici. Em agosto, a moeda americana recuou 1,58% e, no ano, a queda acumulada é de 5,01%. "Não vejo espaço para ganhos", diz. A gestora, afirma, mantém uma posição pequena na moeda, mas como forma de hedge.

Para Viriato, do Insper, "quem não tinha bolsa ou título referenciado ao IPCA [no portfólio] agora não é o momento de entrar em ativos desse tipo". Na visão do especialista, é tempo de rever posições. "Você pode até segurar esses ativos por mais algum tempo, se já tiver em carteira. Mas agora é hora de ajustar o risco, dadas as altas significativas que ocorreram", explica.

Por Sérgio Tauhata e Alessandra Bellotto | De São Paulo
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