Chineses cortejam controladores da CPFL em negócio de US$ 13 bilhões

Chineses cortejam controladores da CPFL em negócio de US$ 13 bilhões

10 agosto 2016, 21:25
Thalya Braga Manilha
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Por 
KANE WU e JOHN LYONS

A estatal chinesa State Grid Corp., maior fornecedora de energia elétrica do mundo por receita, deve fazer ainda este mês uma proposta para concretizar o que pode ser o maior investimento da China no Brasil, dizem pessoas a par do assunto.

A State Grid deve apresentar uma oferta pelo controle da CPFL Energia SA e sua subsidiária CPFL Renovável, tentando concluir uma aquisição avaliada num total de US$ 13 bilhões, incluindo dívidas.

A empresa chinesa já havia feito, em julho, uma proposta de US$ 5,85 bilhões para comprar a participação de 23,6% que a Camargo Corrêa SA tem na CPFL Energia, oferta que foi aceita pela construtora. A compra total da CPFL pode trazer capital estrangeiro novo ao Brasil em meio a uma das recessões mais profundas de sua história.

Altamente lucrativa e com o caixa cheio, a State Grid vem aumentando seus investimentos fora da China em face da desaceleração econômica do país. A demanda chinesa por energia elétrica no primeiro semestre de 2016 subiu apenas 2,7% ante um ano atrás. Em 2014, a State Grid comprou uma fatia de 35% da holding italiana de energia CDP RETI Srl por US$ 2,8 bilhões. Um ano antes, a estatal havia investido US$ 3,7 bilhões em uma participação na empresa australiana de energia SP AusNet Ltd. e suas unidades. Em 2010, em um investimento anterior no Brasil, a empresa comprou sete pequenas empresas transmissoras de energia no sudeste, por US$ 1 bilhão.

Os ativos globais da State Grid somavam mais de US$ 450 bilhões no fim de 2015. Além da participação na CPFL Energia, a State Grid também concordou em comprar a fatia da Camargo Corrêa na CPFL Renováveis, que é listada na BMFBovespa.

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A State Grid está cortejando agora outros grandes acionistas, como a Previ, o fundo de pensão dos funcionários do Banco do Brasil,que é o maior do tipo na América Latina e possui 29,4% da CPFL. Num comunicado, a direção da Previ afirmou que está avaliando a oferta.

A estatal chinesa está otimista que conseguirá o controle acionário da empresa brasileira, diz uma pessoa a par do assunto. Se isso ocorrer, ela terá, por lei, que estender a oferta a todas as ações restantes, pelo mesmo valor.

Comprar ativos de energia elétrica no exterior é parte da estratégia do governo chinês para exportar sua experiência na área de infraestrutura. A State Grid está particularmente interessada em levar seu conhecimento sobre transmissão de energia de longa distância e de ultra-alta tensão para novos mercados.

As enormes distâncias entre as usinas hidrelétricas do Brasil e as grandes cidades tornam o país ideal para a tecnologia da China. A State Grid já fez uma parceria com a brasileira Eletrobras para conectar uma usina hidrelétrica de US$ 16 bilhões na Floresta Amazônica à rede elétrica nacional.

A CPFL já esteve em mãos estrangeiras antes. Por um período durante a primeira metade do século XX, ela foi controlada pela American & Foreign Power Co., com o governo brasileiro assumindo o controle dos ativos durante a ditadura militar. A CPFL foi privatizada durante as transformações econômicas dos anos 90. Hoje, ela é formada por dezenas de empresas de energia e uma das maiores concessionárias do país, fornecendo energia para mais de 500 municípios nos Estados de São Paulo, Rio Grande do Sul, Paraná e Minas Gerais.

As empresas chinesas vêm registrando um recorde de aquisições em outros países neste ano. Os negócios já somam US$ 159,4 bilhões até agora, incluindo US$ 12 bilhões em empresas de energia e outros serviços públicos, segundo a Dealogic.

O Brasil tornou-se um fornecedor importante de matérias-primas para a China no decorrer dos últimos dez anos. O comércio entre os dois países era mínimo na década de 90, mas em 2009 a China ultrapassou os Estados Unidos como o principal parceiro comercial do Brasil, comprando minério de ferro, soja e outras commodities. A aquisição da CPFL representaria uma ampliação dos laços econômicos com a China, que passaria de compradora de matérias-primas a dona de uma engrenagem fundamental da economia brasileira.

A aquisição da CPFL também está relacionada ao momento político brasileiro. O braço de construção da holding Camargo Corrêa tem vendido ativos para captar recursos desde que foi envolvida no escândalo da operação Lava-Jato. Os porta-vozes da construtora responderam aos pedidos de comentário apenas reproduzindo afirmações dos comunicados oficias divulgados pela CPFL sobre o negócio com a State Grid. Anteriormente, a Camargo Corrêa afirmou que estava cooperando com as investigações e procurando melhorar sua governança corporativa e práticas de controle.

A State Grid é a maior operadora do sistema de energia chinês e cobre 88% do país, fornecendo eletricidade para mais de um bilhão de pessoas. Ela registrou um lucro de US$ 13,1 bilhões no ano passado, sobre uma receita de US$ 312 bilhões.

(Colaboraram Brian Spegele e Rogerio Jelmayer.)

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