O reinado está acabando?

O reinado está acabando?

1 março 2020, 21:32
Anderson Braga
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Os quase 30 anos de reinado da China como fabricante do mundo podem estar chegando ao fim, graças ao novo cononavírus Covid-19, e parece que os mercados não estão dando o devido valor a isso. A impressão é que Wall Street foi a última a saber.

Com mais de 8% de queda o S&P500, teve o pior desempenho entre os mercados das nações infectadas pelo coronavírus, ficando atrás até mesmo da Itália que teve mais de mil casos declarados.

A prorrogação do feriado de Ano Novo Lunar para adiar o retorno ao trabalho, restrições de viagem e quarentena de milhões de pessoas, colocaram a atividade empresarial em um impasse.  

O aspecto que mais assusta nesta crise não é o dano econômico de curto prazo que está causando, mas a potencial interrupção duradoura das cadeias de suprimentos, escreveu Shehzad H. Qazi, diretor-gerente do China Bege Book, na Barron's na sexta-feira.

Fabricantes de automóveis chineses são os que mais relatam fechamentos, funcionários de TI  estão a mais de uma semana longe da maioria das empresas. O setor de transporte marítimo e logística relata taxas de fechamento mais altas em relação à média nacional. Em breve as autopeças globais, eletrônicas e cadeias de suprimentos farmacêuticos sentirão os efeitos de ondulação desta severa interrupção.

Não há mais como ser o fabricante mundial de baixo custo. Esses dias estão contados. Com Trump ganhando a reeleição, só acelerará todo esse processo, pois as empresas temerão o que acontece se a fase dois do acordo comercial falhar.

Escolher um novo país ou países para negócio não é fácil. Nenhum país tem a logística criada pela China. Poucos grandes países tem taxas de impostos parecidos com a China. O Brasil é certo que não tem, a Índia até tem, mas sua logística é horrível.

O recém-assinado acordo México Canadá dos EUA, assinado por Trump em lei no ano passado, faz do México o maior beneficiário, se tornando a bola da vez.

De acordo com 160 executivos que participaram da pesquisa Comércio Internacional e Tendências da Foley & Lardner LLP no México, divulgada em 25 de fevereiro, entrevistados dos setores de manufatura, automotivo e tecnologia disseram que pretendiam mudar os negócios de outros países para o México, e planejam fazê-lo nos próximos um a cinco anos.

Embora a fase um do acordo comercial da China seja positivo, o coronavíru(mesmo que temporário) tem mostrado ao mundo que uma dependência excessiva da China é ruim para os negócios. Haverá consequências, e provavelmente com o redirecionamento de investimento estrangeiro.

Sendo o único fronteiriço de baixo custo com um acordo de livre comércio com os Estados Unidos, o México é o melhor posicionado para aproveitar o racha geopolítico de longo prazo entre os Estados Unidos e a China.

O México tornou-se um dos principais exportadores e produtores de caminhões, carros, eletrônicos, televisores e computadores. Enviar um contêiner para Xangai leva 40 dias, enquanto para o México, 5 dias apenas.  O México é o 8º país em termos de engenharia.

Empresas multinacionais estão todas lá. A General Electric está lá. A Boeing está lá. Kia está lá.

O grande problema do México é a segurança. Empresas estrangeiras precisam se preocupar com sequestros, cartéis de drogas, etc... Se o México fosse tão seguro quanto a China, seria o melhor país da América Latina.

As repercussões da guerra comercial já estão sendo sentidas no México, que foi ultrapassado pela China como principal parceiro comercial dos Estados Unidos a não muito tempo.

Segundo pesquisas, 80% de fabricantes do México também tem fabricação em outros países. Das empresas que operam no México 41% também estão na China, destes, 2/3 disseram que já tinham planejado mudar suas atividades para o México dentro de alguns anos e ¼ já haviam transferido suas operações para o México por conta da guerra comercial.

Das empresas que recentemente mudaram sua cadeia de suprimentos, ou estão planejando fazê-lo, cerca de 64% delas disseram que estão transferindo-a para o México.

O fato é que a guerra comercial ainda não foi decidida, mas os danos que já foram causados não serão desfeitos.


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